Entre ser e ter: (a)parecer

Quase todos nós passamos a vida buscando dar-lhe, à vida, um sentido ou, pelo menos, procurando descobrir o sentido que ela pode ter. “Ser” era o verbo que no passado se conjugava com o maior respeito. Então vinha uma lista de virtudes que acompanhavam sempre o bom homem. São muitas e conhecidas, as virtudes, desnecessário, portanto, desenrolar o rol delas. Aristóteles, em seu “Ética a Nicômaco”, praticamente esgotou o assunto.
Mas então veio o capitalismo selvagem e consumista, e a maioria das pessoas encontrou no consumo a conjugação do verbo “ter”. Depois do verbo, a imensa lista dos bens. Agora, o bom homem passou a ser aquele que conseguisse possuir a melhor parte da lista imensa. Nas teorias econômicas o valor já teve (e talvez ainda tenha) a companhia de vários adjetivos. Um deles era (ou é) a locução “de uso”.  O valor de uso teve a competição do valor-trabalho, além do valor de troca, e a confusão estava feita, com teorias digladiantes e inconciliáveis. Pois bem, nenhum desses valores (nem o valor de uso) entraram mais na conta do consumista inveterado. Ele não compra objetos, senão o prazer que o ato de comprar proporciona, pois comprar significa dispor de poder. Em ambos os casos, as pessoas, ou sua maioria, conjugavam esses verbos aí como o sentido enfim descoberto para a vida. Hoje, evoluímos. Nem “ser” nem “ter” dão algum significado à vida da imensa maioria das pessoas. O verbo que dá sentido à existência, hoje, é o verbo “aparecer”. Nem seu cognato “parecer”, nem ele, satisfaz mais quem quer que seja. De que me adianta parecer se não apareço? 
O maior bem, o mais cobiçado, aquele pelo qual se consomem vidas inteiras, é a celebridade. Meu amigo Loyola Brandão estuda o fenômeno em seu romance “O Anônimo Célebre”. Suprema glória estar exposto, nem que seja por segundos, na telinha. Depois disso, a vida está realizada: pode vir a morte. 
Pobres dessas moças que se sacrificam, que se mortificam, para poder aparecer sempre magrinhas na foto. Não sei quem foi o infeliz inventor da idéia de que mulher bonita tem de ser mulher magra. Magra e com cara de mau humor. Comem uma folha de alface por dia até morrer de anorexia. Ou de bulimia, como os casos que se repetem a toda hora.

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