Nelson Rodrigues

Confesso que não assistia as versões televisionadas das obras de Nelson Rodrigues, sempre me pareciam sujas e eu não tinha idade suficiente para entender qua a vida não funcionava exatamente como nos filmes da disney. As críticas à falsa moral e a vida de aparências, feitas pelo dramaturgo incomodam, mas não deixam de ser verdadeiras, um tanto geniais e muito corajosas.

Muito variadas são as reações de quem toma contato com a obra de Nelson Rodrigues. Alguns acham os textos cômicos, divertidos e picantes. Outros torcem o nariz, taxando-os de imorais, subversivos, grotescos e infames. Um terceiro grupo enxerga na obra uma agudíssima crítica á pseudomoral da sociedade brasileira.
Uma sociedade baseada nessa ideologia hipócrita das aparências.

Nelson aponta por meio de sua transgressão literária e da exposição das pútridas feridas morais escondidas sob o manto da hipocrisia, para uma ética superior, na qual se acredita realmente e a qual se acredita com sinceridade, muito diversa da pseudomoral que só se preocupa em obter vantagens de todas as maneiras possíveis.

**O jornalista cunhou na profissão a expressão "complexo de vira-latas", revelando o descrédito do brasileiro nele mesmo.

Algumas frases de Nelson Rodrigues:

"Toda unanimidade é burra, quem pensa com a unanimidade não precisa pensar."

"Invejo a burrice, porque é eterna."

" O jovem tem todos os defeitos de um adulto e mais um: a inexperiência."

"Deus só frequenta as igrejas vazias."

"A fome é mansa e casta. Quem não come não ama nem odeia."

"Não reparem que eu misture de tu e você. Não acrediro em brasileiro sem erro de concordância."

"A dúvida é autora das insônias mais cruéis."

"Um filho numa mulher é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora."

"Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias."

"Até os canalhas envelhecem."

"A televisão matou a janela."

"O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento."

MEU NOME É NELSON RODRIGUES (Zeca Baleiro)

Sou do tempo em que as atrizes tinham alma
Sou do tempo em que farmácia só vendia remédio
Sou do tempo em que jornal de domingo, se lia no domingo
Sou do tempo em que até os canalhas choravam
Sou do tempo em que os ladrões eram elegantes
Sou do tempo em que até os automóveis davam bom dia.

O "teatro desagradável" de Nelson Rodrigues  só foi repulsivo aos olhos de uma platéia que não suportava lidar com seu lado "canalha". Que confundia sua verdadeira face com a máscara que se habituou a usar. A sociedade criticada de maneira mórbida por Rodrigues elucida o vazio existencial dos indivíduos, um vazio que a vida em sociedade não suprime: ao contrário, reforça. O dramaturgo enxergou e mostrou a realidade em uma época em que as pessoas não estavam preparadas para vê-la. Evidenciou as obsessões que estavam por trás dos fatos.



Fonte: Revista filosofia ciência & vida págs. 37 a 50. Ed. 73 Agosto 2012

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