Um súbito pavor

...Um súbito pavor e premonição contra aquilo que amava, um relâmpago de desprezo contra aquilo que para ela se chamava "dever", um desejo tumultuoso, arbitrário, vulcânico, de andança, estrangeiro, estranhamento, resfriamento, sobriedade, enregelamento, um ódio ao amor, talvez um gesto e um olhar iconoclastas para trás, para ali onde ela até então rezara e amara.
Com um riso maldoso ele revira o que encontra encoberto, poupado por alguma vergonha: ensaia como seriam o aspecto dessas coisas quando viradas do avesso. É o arbítrio e gosto pelo arbítrio, se talvez ele dispensa agora seu favor ao que até então tinha má reputação - se ele, curioso e inquisidor, se esgueira ao redor do mais proibido. No fundo de sua agitação e errância - pois ele é intranquilo e sem rumo em seu caminho como em um deserto - estão ponto de interrogação de uma curiosidade cada vez mais perigosa.

(Nietzsche - Obras Incompletas)

Nenhum comentário

Postar um comentário