Alma de pássaro



Sou um ser livre. Nasci assim. Minha mãe sempre dizia que eu não gostava de usar sapatos, nem de prender os cabelos, e que era um sacrifício me vestir porque as roupas me apertavam. Gostava de tomar banho de chuva, de sentir o vento no rosto, e tinha a pertinente ideia de mudar de ideia amiúde. Moral da história: Continuo assim. Sou desprendida por natureza e gaiola nenhuma me segura por muito tempo.
Gosto dessa soltura que me encoraja ir e vir na vida, e até mesmo dentro de mim. Costumo viajar até o pensamento mais improvável e reviver lembranças distantes sem freios nem culpa. Lá nos meus esconderijos corro sem fim nas ruelas do coração. Visito a minha alma, saio e volto para a minha casa quando bem entendo, para esse lugar só meu, onde tudo posso, tudo sou e tudo vivo.

Ser livre é a maior fortuna do ser humano. Não há nada que compre e que pague a maravilha de ser seu único e intransferível proprietário. E quando eu digo livre, não falo dessas loucuras que se vê por aí, de correr pelado na rua, mandar o chefe pro inferno, a sogra pastar. Nada disso. Aliás, a liberdade não deveria ser entendida dessa forma tão rasa. Vejo como as pessoas esbravejam, levantam bandeiras, abaixam as calças. Querem mostrar uma independência e autonomia para o mundo, enquanto, no fundo, são escravas dos seus próprios medos e incertezas. Alguém deve ir lá e dizer à elas que cuspir ofensas na cara dos outros não faz de ninguém um ser livre. Quem faz isso é chato, presunçoso, qualquer outra coisa. Por favor, não confundam liberdade de expressão com oferta gratuita de hostilidade.
A liberdade é muito, mas muito maior do que um topless na praia e esse discurso pobre de cidadão livre na ponta da língua. Ela é sim, íntegra, quando está embutida dentro de cada um, na capacidade de se desfazer dos preconceitos preestabelecidos e mandar embora todo o medo da rejeição, junto com a sofrida necessidade de ser aceito. A liberdade enxerga os rótulos como absolutamente ridículos, destruindo protótipos e modelos de como ser e agir de acordo com as expectativas alheias.
Um homem livre é aquele que não se submete à prisão de nenhum tipo, muito menos àquelas impostas por outros, até porque ser prisioneiro seria um tremendo sacrilégio contra a sua própria natureza. Ele é livre porque pensa por si só, porque faz as suas escolhas e assume os seus riscos. E pronto.

Decerto que algumas vezes acabamos por nos afastar de nós mesmos nos percalços da vida. Por revolta, frustração, ódio ou rancor, e sem dar-nos conta, nos perdemos do que um dia fomos. Vamos parar longe, sei lá onde, sei lá porquê. Seguimos um fluxo como ovelhas no meio do rebanho sem muito critério de direção, até que um dia a gente olha para trás e diz: “Caramba! Como que eu vim parar aqui? Que saudade do que eu fui um dia…” E talvez ainda seja. Porque liberdade é isso também. Ela é imensurável. Sempre há tempo para partir e voltar mais tarde, ir de novo, explorar, trocar. Por isso tem gente que não cabe em uma casa, que o escritório pinica e a rotina sufoca. Essas pessoas voam e voam pra bem longe, gorjeiam, seguem o rumo do vento. Por obra da sorte ou do destino, um dia pode ser que elas voltem, como aves que reencontram o ninho depois de várias estações. Não se sabe se elas ficarão ali pousadas por muito tempo, porque quem tem alma de pássaro não se aquieta em terra firme.

A gente deveria mesmo é ser autônomo para tudo, sabe? Começando por ser livre para amar, já que o amor é um sentimento de libertação de altíssima potência e um alcance gigantesco. Clausura não combina com ele. O amor é tão genuíno que não deveria se acorrentar à nenhum coração partido. Mesmo amando muito o melhor é deixar o outro seguir seu rumo, porque corrente não traz felicidade. Não digo que seja fácil, mas o ideal é ser livre conosco para libertar o próximo.

Livre para ser cada um à sua maneira, mantendo a identidade preservada e, assim, desamarrar os personagens criados ao longo dos anos, como palhaços treinados para entreter e divertir os outros.

Ser livre para sentir. Sim! Sentir sem medo de ser tachado de boboca sentimentalista e chorar — por que não? — abrindo as torneiras que estiveram entupidas tanto tempo. Nocivo é não se emocionar com um livro, um filme de amor, uma canção que fale de saudade. Sejamos livres para abraçar longamente, sair distribuindo beijos aos amigos, vizinhos, parentes, como forma sincera e singela de gratidão e apreço.

Quando formos propriamente livres aqui dentro, tudo ao redor se tornará mais leve e menos penoso. Então, a decisão de ir ou ficar, voar ou repousar, será apenas um pequeno detalhe. Porque os portões estarão escancarados para ser e sentir.
E eu? Bom, eu continuo com os pés descalços.


(Karen Curi - Revista Bula)

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