As máscaras que agradam


Texto de Flavia Melissa
Coisas que eu sempre fiz pra agradar ao outro: troquei minha fantasia de bruxinha do halloween pelo lençol branco com dois furos para os olhos da menina que fazia bullying comigo no prédio pra ela gostar de mim e querer ficar comigo na festinha da escola de inglês na qual eu me sentia deslocada. Bebi e usei drogas para pertencer à galera da praia. Virei melhor amiga da atual do meu ex, com quem ele me traiu (mais de uma vez). Transei sem vontade e fingi orgasmo. Transei sem vontade e fingi orgasmo. Transei sem vontade e fingi orgasmo. E, quando eu olho pra trás, vejo que nada nada nada e nem nenhuma dessas coisas nunca teve a ver com o outro de verdade. Sempre teve a ver com uma tentativa de não sentir o que eu sentiria caso encarasse aquele olhar. Decepção. Mágoa. Desamor. Um dia a gente foi criança e a nossa espontaneidade não foi valorizada e não foi aceita e, então, a gente aprende a criar uma casca de proteção: a boa menina. Aquela que atende pacientes de graça no consultório e depois fica quase maluca porque uma stalker resolveu te perseguir em todos os lugares que você vai. Distribui seu trabalho gratuitamente na internet durante anos, pra não ser julgada por cobrar por ajudar as pessoas. A salvadora da pátria. A gente cria uma camada, um verdadeiro muro e engole uma bazuca pra ter aquele sentimento que vem diante do aplauso, do sorriso, do amor. Ainda que comprado. Ainda que prostituído. Máscaras. Qual foi a sua?

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